Três filhos, três mães. Três amigos.
Luiz, Felipe e Airon; três. Maria, Maria Luiza e Maria Helena; três.
O primeiro, dotado de uma inteligência singular, personalidade forte. Na infância, vivia controlado. Horários. O primeiro a voltar para casa nas noites. Devido ao uso contínuo de antibióticos, desenvolveu uma mancha escura em um dos dentes incisos. Rendeu-lhe o apelido de “Feijão”. Frequentemente era alvo de piadas, tanto pelo horário de retornar para casa quanto pela nódoa dentária. Outras vezes repetiam, em tom sarcástico, o grito de “Luizê”, que era emitido, diária e pontualmente às 20h30min, por sua mãe. Ecoava pelas ruas do bairro onde morava. Maria, a mãe, era uma mulher de feições pesadas, séria. Uma esposa submissa. Uma mãe autoritária. Triste. Traída. Luiz cresceu. Seguiu suas próprias ideologias. Usou sua liberdade – talvez tenha confundido com libertinagem. Se tornou cidadão do mundo, das ruas, dos bares. Maria, talvez pela vida amargurada – ou pelo abuso excessivo do cigarro – desenvolveu algum tipo de cardiopatia. Como consequência da doença cardíaca, Luiz passa as noites, entre xícaras de café e maços de cigarros, cuidando da mãe.
Felipe, o mais novo de quatro filhos. Nunca foi muito fiel às regras. Não obedecia aos horários impostos. Talvez seja o mais misterioso dos filhos das três Marias. Vivia uma liberdade vigiada. Obrigavam-lhe a participar de eventos religiosos semanalmente. Era mal quisto no bairro. Tinha os mais variados apelidos. Os amigos do irmão mais velho não o toleravam. Sempre foi mais próximo às amigas das irmãs. Nunca se destacou em nenhuma atividade. Era mediocremente inteligente. Mas sua mente, sua mente fervia. Vivia contradições. Família patriarcal, extremamente conservadora. A mãe, Maria Luiza, agressiva. Exigia as coisas sempre de imediato. Nada poderia esperar. Ela parecia ter saído direto de filmes dos anos 40. Na adolescência, Felipe deu início a uma revolução interna. A liberdade, nessa época, se tornara libertinagem. Com um coração gigante: a pobreza, a injustiça e o descaso para com os necessitados, rasgavam-lhe a alma. Idealista. Cigarro e álcool se tornaram seus parceiros fiéis, sua fuga. Continua vivendo contradições e mistérios. Aprofundou-se na filosofia e na política.
Airon, o belo. De riso fácil. Solto. Das filosofias da vida não se interessava. Só vivia. Desde sempre teve a liberdade ao seu lado. Esguio, de cabelos dourados. Apesar do clima conturbado de sua casa, vivia tranquilamente. Os problemas dos outros a ele não pertenciam. Espírito leve. Os olhos suaves como a brisa matinal primaveril. Os irmãos mais velhos – contraventores – não desviaram seu caráter. Filho de pais separados. Vivia com a mãe, Maria Helena. Mulher independente. Chefiava um bar com garotas à disposição dos clientes. Também estava à disposição. Cafetina. Era possível ouvir a tristeza ecoando com sua voz. Fumante compulsiva, alcoolista. Também não foi capaz de desvirtuar o filho mais novo. Airon tinha personalidade. Amistoso. Maria Helena parou de fumar. Airon casou-se. Teve filhos. Cria os filhos com moral e serenidade.
Suas vidas se cruzaram, hoje trilham caminhos diferentes. Na infância, brincavam de todas as brincadeiras que costumam entreter crianças. Moravam na mesma rua, casas lado a lado. Brigavam muito, como costumam brigar as crianças. Brigas que pareciam iniciar uma guerra mundial, mas que em tempo curtíssimo seria cessada por um acordo de paz repentino. E logo voltavam a brincar. Aquelas crianças hoje são homens. As mães envelheceram, adoeceram. Ficaram frágeis. E a vida seguiu – e segue- seu curso. O que deles herdarão as próximas gerações? Isso o tempo (e só ele) dirá.