segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os filhos das três Marias.

Três filhos, três mães. Três amigos.

Luiz, Felipe e Airon; três. Maria, Maria Luiza e Maria Helena; três.

O primeiro, dotado de uma inteligência singular, personalidade forte. Na infância, vivia controlado. Horários. O primeiro a voltar para casa nas noites. Devido ao uso contínuo de antibióticos, desenvolveu uma mancha escura em um dos dentes incisos. Rendeu-lhe o apelido de “Feijão”. Frequentemente era alvo de piadas, tanto pelo horário de retornar para casa quanto pela nódoa dentária. Outras vezes repetiam, em tom sarcástico, o grito de “Luizê”, que era emitido, diária e pontualmente às 20h30min, por sua mãe. Ecoava pelas ruas do bairro onde morava. Maria, a mãe, era uma mulher de feições pesadas, séria. Uma esposa submissa. Uma mãe autoritária. Triste. Traída. Luiz cresceu. Seguiu suas próprias ideologias. Usou sua liberdade – talvez tenha confundido com libertinagem. Se tornou cidadão do mundo, das ruas, dos bares. Maria, talvez pela vida amargurada – ou pelo abuso excessivo do cigarro – desenvolveu algum tipo de cardiopatia. Como consequência da doença cardíaca, Luiz passa as noites, entre xícaras de café e maços de cigarros, cuidando da mãe.

Felipe, o mais novo de quatro filhos. Nunca foi muito fiel às regras. Não obedecia aos horários impostos. Talvez seja o mais misterioso dos filhos das três Marias. Vivia uma liberdade vigiada. Obrigavam-lhe a participar de eventos religiosos semanalmente. Era mal quisto no bairro. Tinha os mais variados apelidos. Os amigos do irmão mais velho não o toleravam. Sempre foi mais próximo às amigas das irmãs. Nunca se destacou em nenhuma atividade. Era mediocremente inteligente. Mas sua mente, sua mente fervia. Vivia contradições. Família patriarcal, extremamente conservadora. A mãe, Maria Luiza, agressiva. Exigia as coisas sempre de imediato. Nada poderia esperar. Ela parecia ter saído direto de filmes dos anos 40. Na adolescência, Felipe deu início a uma revolução interna. A liberdade, nessa época, se tornara libertinagem. Com um coração gigante: a pobreza, a injustiça e o descaso para com os necessitados, rasgavam-lhe a alma. Idealista. Cigarro e álcool se tornaram seus parceiros fiéis, sua fuga. Continua vivendo contradições e mistérios. Aprofundou-se na filosofia e na política.

Airon, o belo. De riso fácil. Solto. Das filosofias da vida não se interessava. Só vivia. Desde sempre teve a liberdade ao seu lado. Esguio, de cabelos dourados. Apesar do clima conturbado de sua casa, vivia tranquilamente. Os problemas dos outros a ele não pertenciam. Espírito leve. Os olhos suaves como a brisa matinal primaveril. Os irmãos mais velhos – contraventores – não desviaram seu caráter. Filho de pais separados. Vivia com a mãe, Maria Helena. Mulher independente. Chefiava um bar com garotas à disposição dos clientes. Também estava à disposição. Cafetina. Era possível ouvir a tristeza ecoando com sua voz. Fumante compulsiva, alcoolista. Também não foi capaz de desvirtuar o filho mais novo. Airon tinha personalidade. Amistoso. Maria Helena parou de fumar. Airon casou-se. Teve filhos. Cria os filhos com moral e serenidade.

Suas vidas se cruzaram, hoje trilham caminhos diferentes. Na infância, brincavam de todas as brincadeiras que costumam entreter crianças. Moravam na mesma rua, casas lado a lado. Brigavam muito, como costumam brigar as crianças. Brigas que pareciam iniciar uma guerra mundial, mas que em tempo curtíssimo seria cessada por um acordo de paz repentino. E logo voltavam a brincar. Aquelas crianças hoje são homens. As mães envelheceram, adoeceram. Ficaram frágeis. E a vida seguiu – e segue- seu curso. O que deles herdarão as próximas gerações? Isso o tempo (e só ele) dirá.



domingo, 13 de junho de 2010

Reflexões de um leigo [2].

Trânsito, correria, atrasos, superlotação, engarrafamentos, são problemas detectados frequentemente numa cidade cuja população cresce rápida e desordenadamente. Pensando de modo bastante simplório, não seria melhor e mais barato andar de carro a andar de ônibus? A resposta negativa pode nos causar um certo estranhamento, mas se pesar todos os fatores como manutenção mecânica, combustível, estacionamente e etc, podemos chegar a conclusão de que um transporte público de qualidade custaria menos, além de que, óbviamente, se mais pessoas utilizassem tal meio, o número de veículos como carros e motos diminuiria e, consequentemente, o tráfego.

Segundo estudos realizados por Valério Medeiros, pesquisador pela Universidade de Brasília (UnB), Florianópolis tem o pior índice de mobilidade do País; e o segundo pior do mundo. Não bastando a dificuldade de locomoção automobilística, ainda pagamos uma das tarifas de ônibus mais caras do Brasil

Há cerca de um mês Florianópolis vem testemunhando uma série de manifestações contra o aumento das passagens de ônibus na cidade e em busca de um transporte coletivo "público" de qualidade e, assim, poder firmar o direito de ir e vir, direito este inserido nos termos da Constituição Federal do Brasil. Esses protestos partem de estudantes que são direta ou indiretamente prejudicados pelo alto custo que é transitar na mesma.

Não obstante a Polícia Militar tem repreendido os ESTUDANTES com armas taser (choque), praticado prisões arbitrárias e agressões em todos os sentidos (físico e político), inclusive censurando o direito da imprensa, em algumas ocasiões. O Estado Democrático de Direito, que visa garantir o respeito das liberdades civis, ou seja, o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais, através do estabelecimento de uma proteção jurídica, está em crise, pelo menos na "Ilha da magia”.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

A dupla via na formação da sociedade.

A necessidade de interação é inerente ao ser humano. Quando um grupo de pessoas interage, dá-se início a uma sociedade com costumes, linguagem, religião e cultura própria. Diz-se que esse é o meio social ao qual pertencem esses indivíduos. Esse meio tem forte influência, mas não é o único fator na formação da identidade do Homem.
O Ser humano nasce sem pensamento próprio e, em algum momento da vida, começa a assimilar e absorver características ou costumes do local onde vive e das pessoas com as quais convive. Essa trajetória o leva a identificar-se com outros individuos. Essa "identificação" ocorre conforme o meio exerce influência sobre a pessoa.
Há, no homem, uma pré-disposição genética que, no futuro, pode compor traços de sua personalidade. Cesare Beccaria nos diz que o homem nasce pré-disposto ao mal, mas que essas características só se manifestarão se o meio no qual o indivíduo conviva o conduza a isso.
Ao mesmo tempo, de maneira inversa, o Homem também pode ser produtor do meio. o Homem é movido por ideias e ações, produzir cultura dá a ele a capacidade de existir. Depois de adquirida a cultura de um meio produtor, o indivíduo passa a acrescentar seus pensamentos, passando, assim, à posição de produtor do meio social.
Sendo assim, o homem, como identidade, não é resultado apenas do meio social, mas também de aspectos biológicos. O meio social pode corromper o ser humano ou aperfeiçoá-lo, torná-lo melhor. O Homem e o Meio Social mantém uma relação mútua. "Finalmente, a maneira mais segura, porém ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos propensos a prática do mal, é aperfeiçoar a educação."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Caso Nardoni.

Como já se sabe, a mídia elegeu o fato da semana, aquilo que pretendem nos enfiar boca a baixo pelos próximo dias: O caso Nardoni. O resultado parece bastante óbvio: os réus serão considerados culpados. Assim, a sociedade acreditará que a justiça tenha sido feita, caso contrário, esse será mais um episódio de impunidade no País.Digo isso, óbviamente, levando em consideração o senso comum, o pensamento coletivo.
A banca dos jurados é composta por sete pessoas, mas basta que quatro delas tenham votos similares, para que se encerre a contagem e se tenha o veredito. É válido lembrar que "veredito" não é sinônimo de "verdade". O veredito saberemos em alguns dias, já a verdade...bem, a verdade é outra história.










sábado, 20 de fevereiro de 2010

Violência Legal: pena de morte.

Quando a bestialidade humana, expressa no provérbio: "O homem é o lobo do homem" (homo homini lupus), ou quando o assassinato "judiciário" de uma pessoa se torna algo "natural"?
Um ato tão brutal, que exaltado por intelectuais e aplaudido pelo povo, em resumo, foi sancionado, apresentado e sentido como instrumento idôneo - adequado à civilização e à religiosidade de um povo - que se pode ser empregado sem ser acusado de assassinato.
O problema não consiste em constatar a ferocidade humana, mas em procurar entender porque o instinto jurídico, e como e quando um momento impulsivo e incontrolável do agir humano se transformou em ação legal, racionalmente calculada e predeterminada, regulada por normas precisas e sancionadas como sentença.
Em outras palavras, como a violência deixou de ser "ilegal" para se tornar "legal"?

Referência: A morte como pena: ensaio sobre a violência legal - Ítalo Mereu.